REVISTA
ABC Comercial nº 10
ANO III - nº 10 - 2005
Comércio, Produção e Segurança Alimentar
Introdução:
Em todas as sociedades existem "dizeres", os quais, a priori, parecem simples ditados populares,
mas ao longo da história humana podem traduzir-se em realidade ou num fenómeno visível.
Assim, costuma-se dizer que, "depois das tormentas, vem a calma, vem a Paz e, finalmente, o bem-estar e
a bonança”.
Como é que esses fenómenos se desenvolvem no seio das sociedades? De diversas maneiras. As vezes, pelas
mutações inevitáveis que se operam espontaneamente na própria natureza, portanto, independentemente do
homem e, por outro lado, pelo esforço e inteligência do próprio ser humano.
Angola, durante trinta anos, enfrentou uma guerra fratricida, agravada pela sua internacionalização e
deixou grande parte do País em destroços. Destruiu a maioria das infra-estruturas económicas e sociais,
desalojou a população das suas zonas de origem, criou o pânico no seio da população e matou milhares de
cidadãos Angolanos.
Para os menos pacientes e corajosos, a guerra parecia
"um nunca mais acabar", principalmente quando entraram as forças militares da ONU que depois de
longo tempo no País pouco ou nada resolveram sobre a causa
Angolana.
Curiosa e milagrosamente, a dado momento, as partes beligerantes angolanas, sem dessa vez precisar de
intervenção de ninguém, entenderam-se e as armas calaram, alcançando-se dessa feita, a Paz
Definitiva. Depois da tormenta, surgiu a calma, surgiu a Paz.
Depois dessa vitória histórica os Angolanos já podem sentir-se realizados? Ainda não. Porque
falta a Paz Social, pelas seguintes razões:
Apesar do processo de reassentamento da população em curso nas suas zonas de origem, grande
parte da população rural, ainda pulula nos grandes centros urbanos do País, sem quaisquer condições
sociais;
A ajuda externa de bens alimentares e roupas, sobretudo do '"' PAM", ainda continua a sua tábua
de salvação;
A produção rural de bens alimentares e matérias primas para a industria, está quase na estaca zero;
O País tornou-se um importador líquido de bens essenciais a população e alguns alimentos que
chegam ao País, principalmente cereais e frescos são produzidos mediante sementes e compostos
geneticamente modificados;
O País está parcialmente destruído;
Algumas famílias não sabem em que Província andam os seus ente-queridos;
No cômputo geral, a população caiu em extrema Pobreza.
Nesta nossa introdução, procuramos focar na medida do possível, os principais problemas que apoquentam
os dirigentes e a sociedade civil do País e a sua solução é muito urgente. Contudo, para alcançar resultados
positivos neste campo, é preciso mobilizar todas as forças vivas do País e agir com consciência Política
e coerência.
Redução da Pobreza:
Falar da redução da pobreza não é mais que debruçar-se
sobre uma área social extremamente importante, porque um País com mais de metade da população a
viver em extrema pobreza, não pode progredir, nem honrar os seus compromissos internos e externos e
muito menos enfrentar os desafios que o mundo actual nos impõe.
Quando um povo vive abaixo da linha da pobreza, perde a sua capacidade cognitiva, perde o amor a
Pátria, não participa no debate dos interesses mais nobres do País e a democracia não funciona.
Por isso mesmo, o grande esforço que o Governo fez durante a guerra, terá que continuar noutra vertente
para sairmos desse marasmo em que estamos mergulhados.
Comércio, como Factor de Desenvolvimento Económico e Social:
Em tempos muito idos o Comércio era considerado
um sector terciário, um sector intermediário que se situava entre a agricultura e a industria. O seu peso na
economia dos Países estava secundarizado.
No mundo actual, o Comércio é um dos ramos mais importantes na maioria dos Países, principalmente nos
industrializados onde as receitas decorrentes das exportações ocupam um lugar de relevo na formação
do PIB.
Outrossim, como é o ramo que está mais próximo do consumidor, em todos os produtos essenciais a população
para satisfação das suas necessidades, o Comércio tornou-se o veículo condutor do progresso,
porquanto, a industria lança no mercado novos produtos através das suas inovações para proporcionar novidades
ao consumidor;
Um dos pontos quentes discutidos na décima primeira conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e
Desenvolvimento (UNCTAD) realizada em S. Paulo-Brasil, de 13 a 18 de Junho de 2004, foi o de empregar
a força do Comércio para o desenvolvimento económico social, com vista a redução da pobreza, já
que, no mundo actual, o Comércio é a principal força motriz da economia global.
No caso especifico de Angola, nos primeiros anos da Independência, se a guerra destruiu quase todas as
infra- estruturas económicas, estando a maioria dos sectores impossibilitada de reorganizar as suas áreas
de acção, no interior do País, foi o Comércio, que também não se escapou dessa catástrofe, que foi
lutando para chegar as comunas mais longínquas do interior do País para minimizar o sofrimento da população,
sobretudo em bens alimentares e vestuário e naquele período, empregou quase metade da população
em idade adulta.
Na Europa, segundo as estatísticas da União Europeia,
cerca de 17% da população global tem o seu escudo no Comércio - VIVA O COMÉRCIO.
Em Angola, o Sector onde a população encontrou a
sua tábua de salvação para sobreviver é no Comércio
- VIVA O COMÉRCIO.
Agricultura e Industria:
Em 1976, o Saudoso Presidente Agostinho Neto, afirmou
perante o Povo Angolano, que a agricultura seria a "Base da Economia" e a Industria o "factor decisivo".
Essa verdade inequívoca é valida para quase todo o mundo e, em relação a Angola, essa tese é ainda
mais verdadeira porque está ao alcance do horizonte visual de todos os Angolanos, pelos seguintes
motivos:
Cerca de 80% do Capital humano Angolano habita o meio rural e vive exclusivamente da agricultura, salvo as
distorções criadas pela guerra, das quais o Governo já está
a tomar as medidas pertinentes para ultrapassa-las e repor
a situação anterior, os bons dias estão próximos;
As reformas económicas adoptadas pela Administração Portuguesa nas décadas de 60 e 70 na
agricultura e na industria, sobretudo na industria alimentar
levou a Angola a um patamar tal que se tornou auto-suficiente em quase todos os produtos alimentares
e produzia stocks para a exportação;
A Industria Nacional, com a excepção da metalomecânica
utilizava materiais-primas de produção Nacional;
O nível de vida do cidadão Angolano tendia para o crescimento.
É certo que durante o longo período de guerra, por mais
esforços se desenvolvessem, os resultados nunca seriam satisfatórios porque grande parte das forças activas do
País estavam priorizadas para defender a integridade do
País, assim como as receitas do Orçamento Geral do Estado.

As armas calaram, alcançou-se a Paz Definitiva, contudo
falta agora alcançar a Paz Social, para que o cidadão Angolano se sinta verdadeiramente satisfeito no seu País.
Posta isso, falta perguntarmo-nos, a nós mesmos, como
podemos sair da catástrofe em que nos encontramos?
Milagres não há! Temos que produzir, temos que produzir,
temos que reconstruir o País;
Na década de 80, a preocupação do Angolano, em termos
de produção, era de repor os índices de 1973 que é o patamar
economico mais alto que Angola conheceu até então.
Agora, temos que nos revestir de novas ideias se é que queremos enfrentar os desafios que o mundo moderno
nos impõe.
O ponto de partida é o combate á fome e á eliminação da
extrema pobreza.
Num dos artigos, anteriores, dessas pequenas obras a que
nos propusemos oferecer aos amigos leitores, dizíamos que o País que não investe, compara-se a um agricultor
que não semeia mas que quer colher. É possível? Não!
Se assim é, o País tem que investir; tem que valorizar o
seu capital humano, isto é o camponês do meio rural que
absorve 80% da população global do País, e tem que proporcionar
à essa esmagadora franja da população, condições vitais para a sua sobrevivência.
A Lei de Terra deve ser tida como um Diploma fundamental
para legalização e distribuição de terras aos agricultores e pequenos camponeses.
O Ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Rural,
deve ocupar-se da produção de sementes tradicionalmente
utilizados em Angola, isto é, não geneticamente modificados, com vista a satisfazer-se o mercado interno
com alimentos orgânicos e não com os convencionais (geneticamente modificados) cuja a importação atingiu
volumes assustadores.
Envidar todos os esforços no sentido de recuperar a produção
avícola, suína, caprina e bovina nas Províncias, com especial realce nas de Huíla, Cunene, Huambo,
Benguela, Kuanza - Sul e Luanda;