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REVISTA ABC Comercial nº 10
ANO III - nº 10 - 2005

Empresa e Empresários

  • “GOVERNO REESTRUTURA SISTEMA DE LOGÍSTICA E DE DISTRIBUIÇÃO DE PRODUTOS ESSENCIAIS À POPULAÇÃO”

A distribuição constitui um dos elos importantes do ciclo económico –Produção/Distribuição/Consumo – que, pela sua própria natureza é uma actividade de intermediação, ou seja, para que haja distribuição é necessário que antes, haja quem produza e depois, quem compre. Para exercer a função distribuição o comércio vai às fontes de abastecimento adquirir bens e procura consumidores para estes mesmos bens encontrados nessas fontes de abastecimento.
A distribuição tem assim a função de facilitar a satisfação de necessidades de outros agentes económicos, nomeadamente as famílias, as empresas, as instituições do Estado e o exterior. Essa actividade de facilitar a satisfação de necessidades tem em consideração, normalmente, aspectos quantitativos, qualitativos, de sortido e de preços dos bens fornecidos aos consumidores.

Qual a actual situação do sistema de distribuição dos produtos essenciais à população?

De uma forma genérica podemos afirmar que todos nós consumimos aquilo que pretendemos. Ou seja, paradoxalmente, nas condições caóticas em que se desenvolve a actividade comercial em Angola, ainda assim os consumidores encontram no mercado aquilo que pretendem.

A pergunta que podemos colocar é: os consumidores são servidos convenientemente, em termos de preços e qualidade dos produtos vendidos, em termos de condições de higiene e salubridade, em espaços adequados? Aí, a resposta é certamente, Não.

Porquê?

A necessidade de enfrentar um conflito armado e ao mesmo tempo a realização de tarefas ligadas ao desenvolvimento económico e social, impôs ao Governo a obrigação de fazer opções de privilegiar o sector produtivo e o sector social, em detrimento do sector comercial e, por consequência, este começou a ter um desenvolvimento autónomo, encontrando o seu próprio caminho.

A opção de marginalização do sector comercial era a opção mais viável, porquanto, no conjunto de todos os sectores da economia, o comercial é aquele que se pode desenvolver sozinho, pela facilidade com que se podem realizar as transacções e sem grandes necessidades de investimento, como a própria experiência veio a demonstrar.

O desenvolvimento autónomo a que nos referimos anteriormente teve como efeitos, um défice de estabelecimentos comerciais (note-se que a 31/12/74 havia cerca de 30 mil estabelecimentos para um universo de aproximadamente 5,6 milhões de habitantes e, a 31/12/00 havia cerca de 27 mil estabelecimentos para uma população estimada em 13,4 milhões); a guerra transferiu da produção para o comércio, grande parte da população camponesa, engrossando o sector informal que se instalou; a incapacidade de financiamento à criação de infraestruturas levou a que estruturas comerciais precárias surgissem, donde tudo o que pudesse acomodar um vendedor acabou por ser usado como estabelecimento comercial (pára-quedas da força aérea, sobrinhas de praia, esquinas dos prédios, etc).

Pode-se assim referir que o actual sistema de distribuição de bens essenciais possui as seguintes características:

1) Infra-estruturas e tecnologias inadequadas e insuficientes para a acção de aprovisionamento e distribuição, daí resultando: Exposição dos produtos às moscas, ao sol, à poeira, aos microorganismos patogênicos; produtos incorrectamente conservados e armazenados; baixa qualidade da maioria dos estabelecimentos comerciais.

2) Posição oligopolística no comércio dos produtos básicos, de que resulta: uma distribuição irregular; açambarcamento dos produtos; preços especulativos contrariando os esforços do governo no combate à inflação; oferta pouco diversificada e de inferior qualidade.

3) Localização geográfica inadequada dos armazéns grossistas, originando: Congestionamento nas vias urbanas; proliferação e concentração de resíduos sólidos nas proximidades dos armazéns grossistas; actividade grossista e retalhista em simultâneo no mesmo estabelecimento.

4) Fiscalização comercial deficiente e inadequada, resultando em: Venda de produtos expirados, de qualidade duvidosa, sem rotulagem ou falsificados; produtos expostos sem o preçário correspondente; organização contabilística deficiente; aplicação deficiente das normas comerciais.

5) Fraca contribuição da produção interna, de que resulta: Grande dependência das importações; fraca diversidade de produtos de primeira necessidade; baixa qualidade da pouca oferta existente.

6) Sector informal demasiado grande e maioritariamente ilegal, produzindo: Baixos e irregulares rendimentos dos operadores, sendo ao mesmo tempo consumidores de fraco poder de compra; empregos efémeros e grande risco de insegurança; nomadismo e ilegalidade da actividade económica. 

Terminada a guerra, e estando já delineadas as estratégias de relançamento e desenvolvimento do sector produtivo e do sector social, cremos estarem criadas as condições para a intervenção do Estado no sector comercial, incentivando e estimulando o surgimento de infra-estruturas comerciais adequadas, pois a realidade prática vem confirmando a relativa incapacidade do sector empresarial privado sozinho realizar investimentos neste domínio.

Foi assim que o Governo aprovou a Estratégia para a Reestruturação do Sistema de Logística e de Distribuição dos Produtos Essenciais à População, que pretende atacar os problemas atrás referidos e garantir:

a) A regularidade da oferta e estabilidade nos preços dos produtos essenciais; b) A atenuação ou eliminação dos efeitos monopolistas no mercado desses produtos; c) O apoio ao incremento da participação da produção interna na estrutura do consumo final; d) A garantia da venda de bens em condições de higiene e salubridade aceitáveis. 
A base da estratégia é uma intervenção do Estado nos domínios:

a) do quadro legal e regulador da actividade comercial; b) da promoção dos investimentos no sector comercial; c) da intervenção empresarial do Estado por intermédio do EAA.

A actuação deverá ser em três vectores:
1) Intervenção, por intermédio do EAA e dum grupo de empresas de angolanos, no mercado concorrencial para contrapor-se aos grupos empresariais privados que detêm posição dominante no mercado dos bens de consumo essenciais, agindo como centrais de compras de bens de importação;
2) Criação dos Mercados Organizados (mercados municipais) e a promoção do surgimento de uma nova rede comercial de pequeno retalho como forma de criação de empregos, formalização e regulação do sistema comercial;
3) A criação das Centrais de Abastecimento/Mercados Abastecedores, para apoio à produção interna e suporte aos mercados organizados e à rede comercial retalhista.

Para o desenvolvimento desta estratégia é decisivo o estabelecimento de uma parceria entre o Estado e o sector privado, pelo que, desde já, apelamos ao envolvimento construtivo de todos os angolanos nesta empreitada, sejam empresários, consumidores ou agentes governamentais.

Dr. Manuel da Cruz Neto
(Vice-Ministro do Comércio)

Nota de Redacção:
Para concretização do Programa e Estratégia em referência, aprovado pelo Conselho de Ministros, do Governo da República de Angola, foi criado através do Despacho Presidencial nº15/05, de 31 de Outubro publicado no Diario da República I série - nº 130, o Grupo de Coordenação para a implementação da Reestruturação do Sistema de Logística e de Distribuição de Produtos Essenciais à População, coordenado por José Pedro de Morais, Ministro das Finanças e integra as seguintes Entidades:

Manuel Hélder Vieira Dias Júnior – Chefe da casa Militar, do Presidente da República;
Manuel da Cruz Neto – Vice-Ministro do Comércio;
Augusto Archer Mangueira – Assessor Económico, do Presidente da República;
António Gomes Furtado – Assessor Económico, do Primeiro Ministro
Gomes Cardoso – Director Nacional do Comércio Interno, do Ministério do Comércio
Representante – do Ministério da Administração do Território
Representante – do Ministério dos Transportes
Representante – do Ministério da Comunicação Social

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