A
vida de um caixeiro viajante, para mim que o foi
durante muitos anos, é a vida mais bonita e alegre
que pode haver. Isto porque encontramos sempre
coisas novas e até paisagens maravilhosas como só
Angola nos proporciona.
Por volta dos 7 a 10 de Janeiro de cada ano começava a
nossa tarefa. Nós os de Nova Lisboa que, éramos talvez
uns 10/15 de diversos ramos, isto é, vendíamos mercadoria
diferente uns dos outros e em algum casos a mercadoria
era igual, aqui começava a ter influência a simpatia que
o cliente poderia ter por este ou aquele vendedor ou ainda
os preços que cada um poderia apresentar.
O nosso roteiro, quero dizer, a primeira povoação a parar
era o cruzeiro que ficava a uns 7 a 10 km de Nova Lisboa,
era um único comerciante, Sr Freitas, depois as Boas
Águas, também um só comerciante , Sr Diamantino
Duarte Pinto: o mais forte comerciante naquela época era
o Sr Lopes de Oliveira C.ª, também havia a Serra do
Amaral, Duarte & Irmãos, Ancando da Rocha Completo e
mais alguns, como o Sr Firmino David que, por ter fundado
um grande grande Club naquela época o Sporting Club
da Vila Nova, cujos jogadores na sua maioria foram de
Luanda, só que este comerciante não aguentou as despesas,
acabou por falir em termos comerciais.
Depois a Bela Vista, também esta povoação tinha muitos
comerciantes, dentre estes o maior era a Firma Santos &
C.ª, mas havia, também o Fernando Leitão, Higino
Ferreira, Neves Soares, Custódio e Irmão e mais alguns.
Nesta Vila, tive uma história muita engraçada passada no
Hotel.
Em termos normais, o nosso trabalho, começava às 8 da
manhã e terminava por volta das 19 ou 19: 30. Ia para o
Hotel (Hotel Avenida) que ficava na Avenida Principal
virada para a Estação do Caminho Ferro. Chegado ao
Hotel tomava o banho habitual e preparava-me para o jantar
(após o jantar formávamos equipas de 4 para jogarmos
a sueca, nestas equipas por vezes eram colegas, viajantes
ou até clientes que também apareciam pelo Hotel. A corrente
eléctrica era encerrada por volta das
23:30, por isso nós acabávamos a nossa sueca por volta das 23 horas.
Então, cada um seguia para o seu quarto cuja mobília era
composta de uma cama, guarda fato de madeira, uma
cadeira, mesinha de cabeceira, um bacio e um lavatório de
esmalte com o respectivo jarro cheio de água para complementar
uma vela e uma caixa de fósforos.
O gerente e dono era o Sr Santos que tinha vindo do
Chinguari.
Certa noite, por volta das 23 horas, foi para o meu quarto
e quando fechei a porta veio-me um cheiro incrível, só
parecido com coisas mortas, vou ao guarda fato não havia
nada, vejo de baixo da cama, também nada então lembreime
da mesinha de cabeceira e ai sim, era o bacio ( que em
português se chamava pinico) e ai sim vi que o dito tinha
um sarro amarelo de urina seca que teria talvez uns quinze
dias.
Pois a solução mais viável que encontrei foi abrir a janela
da rua. No dia seguinte e como sempre, levantar às 7 da
manhã e as 7: 30 tomar o café da manhã, logo que entrei
no Bar, estavam três ou quatro senhores e também o
hoteleiro e então os comentários do Hoteleiro (vou desistir
desta vida, isto não se pode aturar, estes filhos da P....
embebedam-se e depois, vejam, atiram a mobília para a
rua, ouvi mais insultos até que me dirigi ao Sr Hoteleiro e
perguntei-lhe então o que? Sr Santos, dirigimo-nos a porta
da Rua e ele então mostrou-me o dito bacio e também a
mesinha de cabeceira. Então, nesta altura e na frente de
quem estava, disse-lhe , olha Sr Santos, quando se aproximar
do bacio e da mesinha e estiver a uns 5 m, sinta o
cheiro que dai vem pois tinha a certeza que embora uma
noite passada e como choveu, o cheiro a podre ainda se
mantém, ele então chegou a conclusão que tinha sido eu,
depois de verificar pediu-me desculpa e eu fui dizendo que
não tinha dormido, como resposta , só me disse que eu não
pagava a diária, mas por favor para não dizer nada a
ninguém. Esta viagem ficou um pouco mais barata.
Dai partia para Chinguar onde também haviam grandes
comerciantes ( lá o maior seria o Paes Oliveira & Cª ou até
o Seabra Moura & Irmão, depois uns , mais, pequenos,
mas também muito bons, depois uma saltada para Cutato
onde esta o Sr José Rosa Pinto e os Irmãos Pires Sage.
Voltávamos atrás à Estrada de Silva Porto , a primeira
Povoação era o Cuquema que a distância de Silva Porto
era mais ou menos de 20 km, ali só havia um cliente Sr
Eugénio Augusto dos Santos , depois então Silva Porto,
nesta cidade os comerciantes eram muitos e o maior era o
Abel da Cruz ( casa Ford), o Piscas e o Zé Luís eram os
gerentes.
Silva Porto era uma cidade muito grande e bonita e em termos
comerciais bastante rentável, nesta cidade e ao contrário
das vilas anteriores, onde eu e os meus colegas em
Silva Porto já estaríamos quatro ou cinco anos a trabalhar
em pleno ( pois lá tínhamos casa Gatões Alves e Irmão, B.
Sequeira Cª, Sequeira e Pereira, Amândio Marques
Amaro, Armindo Ferreira « meia onça» Carlos Veneza
Nobre, Manuel Tavares de Almeida ( o homem da Ofiana)
Raul Astro Sousa (o homem das bicicletas e motorizadas).
O nosso amigo Leitão da Livraria que tinha sempre
uma anedota para contar, haviam muitos mais, mas
Silva Porto também tinha uma piscina no centro da cidade
e então em certas épocas aparecia uma Senhora a tomar
banho que era de fazer parar o trânsito ( julgo ser familiar
da casa Ford).
Depois o vouga também nesta vila haviam 5 ou 6 clientes
dos quais se destacava a firma Manuel Man.... & Cª,
depois funda honde havia o seu Simões, até que chegavamos
ao Andulo, também aqui havia diversos clientes cujo
nível era mais ou menos igual desde o A Gouveia, A
Ribeiro sobrinho Rodrigues Frutoso & Filhos J. Feliciano
Sobral e mais quantos.
O hoteleiro era o Sr. Pompeu que servia muito bem.
Depois a Uharea nesta povoação havia uma grande organização
comercial que era a firma Tavares & Simões,
honde toda a gente trabalhava desde os maridos ás
esposas, daqui partiamos para a Gamba honde havia o Sr.
José Garcia e mais tarde o filho Fernando Garcia também
eles bons comerciantes. 30 a 40 kilometros depois tinhamos
nova sintra honde estava instalada a missão da xissamba,
grande médico tinha resta missão o Dr. Strangula,
vinha gente de muito longe para ser tratada por este grande
médico. Nesta vila embora pequena também grandes comerciantes,
como o Dias & Irmão, Eduardo Coelho, Ramiro
da Silva, Maximino Costa que além de comerciante também
era o Hoteleiro. Depois General Machado
(Camacupa) já era uma vila bastante maior, honde se
destacava o Sr. João Geraldo, herdeiros, um Sr. Mestíço de
grande envergadura comercial mas também haviam outros
como Joaquim Martins, Rabaçal e Bolota, Almeida
Marques & Cª, António Figueiredo Pinto e muito outros.
A cerca de 60 Km depois tínhamos a chindumba,
onde havia um só comerciante, Sr. Manuel Tavares, para depois
chegarmos ao Cuembo. Nesta povoação haviam quatro
comerciantes relativamente pequenos e havia a Pensão do
Sr. Manuel Pires Gomes. Depois nós Caixeiros Viajantes
entravamos na estrada de areia honde so de Geepe conegração
ás 4 rodas podiamos seguir. Do Cuemba até ao
Luso, hoje o Moxico, passavamos por diversas Províncias,
Simoge, Cangonga, Cangumbe, Chicala e depois o Luso.
Estas povoações também haviam comerciantes que a
maior parte se dedicava ao corte de madeira uns para
abastecer o caminho de ferro e outros para mandarem para
o Lobito para exportação.
A cidade do Luso já era uma cidade de grande envergadura
comercial. Pois além de grande quantidade de crueira
que era enviada em vagons do C.F.B. para o Lobito e
Benguela para daqui ser exportada, também a ginguba e
também um peixe que saia da chana da cameia, que se
chamava Bagre e toqueia, é imaginável a quantidade de
vagons que saiam do Luso, Luena, Lumege- Kassai,
Luacano Mucussuege e Teixeira de Sousa. Uma grande
parte dos comerciantes do Luso tinham filiais espalhadaspor
uma grande parte desta Província, como sendo buraco
dela Hdenrique de Carvalho, para além de Hdenrique de
Carvalho isto é para a zona diamantifera não nos era permitido
entrar, aqui era zona proibida, A Companhia dos
diamantes importava quase tudo o que consumiam a não
ser os transportes que eram feitos por comerciantes do
Luso. Nós viajantes chegavamos a estar 8 a 10 dias a trabalhar,
o Luso pois além de muitos comerciantes estes
nem sempre tinham tempo de nos atender, normalmente
trabalhavamos ou antes dos estabelecimentos abrirem, 6
da manhã ou depois das 19 horas o mesmo nos acontecia
em Teixeira de Sousa (fronteira) ou então aos domingos.
Naquele tempoVila Teixeira de Sousa era na verdade para
nós caxeiros viagantes uma zona comercial muito volumosa,
isto porque para além do consumo local, também
havia muito contrabando e até também grandes trocas
comerciais entre esta vila e a povoação de Dilolo que ficava
a 7 Km da fronteira de Teixeira de Sousa. O grande
impusionador do outro lado da fronteira era o Sr. Panagi,
(um Grego Judeu) que como todos os Jedeus era um
grande comerciante. Eles do Congo tinham os tecidos
estampados e os lenços de cabeça, nós os de
teixeira de Sousa, o sabão, o vinho, peças para bicicletas e muitos
outros artigos. Os comerciantes de Teixeira de Sousa eram
muito poderosos em termos financeiros, honde se salientava
a firma Antero Marques Gouveia, mas haviam outros
que também eram grandes em termos financeiros, como
António da Silva Brandão, António Madeira Tavares,
Simão Nogueira, Simão Luis Madeira Tavares, Joaquim
Simões da Silva, Carlos Alberto Marques e mais alguns ,
uma grande parte destas firmas tinham filiais desde o
Mucussuege ao Cazombo e Alto Zambeze. Como em
todas as povoações aqui citadas também nesta, nas horas
depois do travbalho se jogara a sueca passa tempo habitual
depois da missão comprida em termos de trabalho.
Habitualmente eram Cacheiros viajantes, comerciantes e
até o Sr Zé Manuel que até era o Chefe da Guarda Fiscal
nesta Vila, aqui me aconteceu um caso que deve para se
reflectir durante toda a minha vida. Caso muito estranho
que foi o seguinte, nosso grupo da sueca também aparecia
um Senhor chamado Pompilio que por sinal tinha uma
oficina de automóveis e a quem eu também vendia algumas
peças enfim, éramos amigos, certo dia depois de eu
ter acabado o meu trabalho, vou a hotel carregar a minha
mala e é quando me aparece o Sr. Pompilio, o pá podes
levar uma dúzias de lenços do Congo e até untamos peças
de kitengnes e até se não tiveres dinheiro para pagares,
mandas depois e diz-me como e honde poder esconder os
artigos no meu Geep, disse-lhe que não o negócio não me
interessava e nada comprei. Qual não é o meu espanto e já
a uns 500 metros da vila numa curva e de baixo de uma
arvore me aparece o Sr. Zé Manuel devidamente fardado
e mais dois subordinados, com eles traziam um frasco de
cola e os respectivos selos para me prenderem o Geep e a
dita mercadoria, claro que me esqueci do nome do Sr. E
apenas lhe disse Sr Agente pode dizer ao seu amigo
Pompilio que o vosso combinado não resultou e o sr.
Agente Zé Manuel regressou a base mas se qualquer multa
aplicada e também sem prender qualquer tipo de contrabando.
É evidente que também nos acontecia coisas
engraçadas, certa viagem ia eu do Kassar para o Luacano,
a estrada era bastante má, tinha chovido muito, e em sentido
contrário avistamos um grupo de homens, uns 20
mais ou menos, estávamos na época de 70 e nesta altura os
movimentos de libertação andavam muito activos, digo
para o meu ajudante, ó Luís parece que estamos mal mas
o Geep foi andando, até que paramos já perto dos homens,
parei e dirigi-me ao mais velho e disse-lhe ó século sou
Cacheiro viajante e vou a caminho do Luacano, resposta
pronta do mais velho ó branco ou podes ir só que durante
a noite choveu e um portão foi com a chuva, lamentei-me
e então diz-me o homem olha encosta ali na sanzala que
os meus homens vão tentar arranjar o portão que era muito
curto 2 a 3 metros sentanto. Qual não foi o meu espanto
quando uma senhora da sanzala nos traz uma galinha assada
e batata doce e também para beber um jarro de
Kassangua, eu esta bebida nunca tinha bebido mas pedi
água que me foi dada logo. Passando um bom bocado
aparecem os homens e dizem-me ó branco podes seguir
as tábuas soltas mas ficaram lá 3 homens para ajudar.
Peguei em mil escudos e vou entregar ao mais velho ele de
princípio disse que não que o que fizeram e a comida não
era nada eu apenas lhe disse isto não é para pagar é para
comprarem umas grades de cerveja e beberem, então sim
assim recebemos. Gente boa esta gente do Leste. Era esta
a vida do Cacheiro viajante em Angola, aqui falei da
viagem Nova-Lisboa – Teixeira de Sousa, claro que para
nós viajantes a zona rica era a de Cangumbe a Teixeira de
Sousa passando por Henrique de Carvalho Honde nestas
povoações o forte era a crueira, ginguba, bagre e toqueia.
Fazia outras localidades como por exemplo da calenga ao
cubal – voltar a ganda subir a serra da chicuma depois a
área de Caluquembe, Vila Branca, Cacula e Sá da
Bandeira, por vila Arriaga chegarmos a Moçamedes e
Porto Alexandre, no regresso a Sá da Bandeira vinhamos
ao Kipungo Chicomba Matala Capelongo e dois Caconda
ARMINDO MAGALHÃES
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Tudo o que digo para traz refere-se antes de 25 de
Abril, isto é mais exactamente no dia 15 de Agosto
de 1975, dia em que abandonei Angola ainda me
lembro na hora em que estou a ir para o Aeroporto
um Guerrilheiro só me diz então Branco também
vais embora, eu disse que sim e a resposta dele olha
que a nossa terra só é boa para todos nós.
Montei
uma fábrica de confecções em Teiria onde ainda
hoje estou, passo 6 meses em Portugal e os outros
6 meses em Angola: Em Angola temos as
Confecções Armag 2 estabelecimentos e Soamben
2 estabelecimentos de peças para Auto (Armag
Peças). Tudo isto recomeçou com os conselhos de
sua Excia o Sr. General Osvaldo Serra Vandunem, infelizmente já falecido. Homem
extraordinário o Sr. General, que chegou ao ponto
de nos convidar para irmos ao Huambo (terra onde
começamos desde 1955. por causa da guerra que
assolou aquela Província, viemos para Luanda
(terra onde penso ficar ainda... embora
já tenha 72 anos de vida. |
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